Sector financeiro, entre a venda do Novo Banco e continuar a limpeza

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Económico

Venda do Novo Banco, limpeza de balanço e cisão no BPI entre os temas quentes para 2016.

O ano que agora terminou foi apontado, por vários banqueiros e analistas, como o exercício de viragem para o sector financeiro português. Pode ainda ser, em termos de regresso global aos lucros (os resultados de 2015 ainda não são conhecidos), mas há ainda um caminho a fazer até à sustentabilidade da indústria bancária.

Se é verdade que vários bancos relevantes melhoraram resultados e ficaram até em terreno positivo nos primeiros nove meses do ano, também o é que parte significativa disso foi conseguido à custa de corte de custos, extraordinários e ganhos em operações financeiras. O negócio, esse, continua a não descolar de forma a, recorrentemente, podermos dizer que o sector já deu a volta. Tal poderá acontecer em 2016, mas enfrenta um vento contrário que marcou os últimos anos e que continuará a fazer-se sentir neste novo ano. É a chamada “limpeza de balanço”, ou seja, o reconhecimento de imparidades e perdas, em crédito e noutros activos como o imobiliário, que obrigam à constituição de provisões que têm penalizado os resultados. Apesar de todo o trabalho já feito, e que dura há vários anos, é uma tendência que ainda resistirá em 2016.

Se este fenómeno já se tornou banal – ainda que inevitável – há dossiers específicos que concentrarão as atenções e terão impacto sobre o sector como um todo. À cabeça deles está a venda do Novo Banco.
Depois do falhanço do processo de venda anterior, foram dados passos importantes que, em teoria, tornarão mais eficiente – e lucrativa – a alienação da instituição. Por um lado, foi conhecido o resultado dos testes de stress europeus, revelando necessidades de capital de 1,4 mil milhões de euros. Recorde-se que esta incógnita foi um dos motivos para o insucesso do anterior processo de venda. Conhecido esse valor, boa parte da incerteza desaparece, em termos de informação relevante para a formalização de propostas. Por outro lado, a passagem da responsabilidade de quase dois mil milhões de euros em obrigações seniores do Novo Banco para o BES aliviou significativamente os rácios da instituição liderada por Stock da Cunha, dispensando novos aumentos de capital por parte do futuro comprador. Espera-se que o processo de alienação seja relançado em breve.

No caso do Banif, que tanto deu que falar depois da simultânea venda de activos ao Santander e resolução do que restou da instituição, este ano será palco de notícias mais relativas à eventual litigância, a possível impugnação e luta jurídica das decisões do Governo e dos reguladores. Um caso fechado em termos de solução mas que ainda vai dar muito que falar.

No BPI, o novo ano traz mexidas no universo do grupo. Para 5 de Fevereiro está marcada a assembleia geral para votar a cisão dos activos africanos (com o BFA à cabeça), como forma de contornar o risco excessivo no seu balanço. O negócio não se afigura fácil, tendo em atenção a oposição da accionista de referência Isabel dos Santos. Seja como for, caso vá para a frente, o BPI será uma instituição muito diferente – e mais reduzida – do que é hoje em dia, deixando de poder contar com o contributo positivo das actividades internacionais para os seus resultados.

Em cima disto tudo, continua a “cavalgada da supervisão”, em termos de exigências regulatórias e de capital. Os maiores bancos do sistema terão de criar almofadas específicas de liquidez para riscos de crédito. A nível mais geral, mas de uma importância extrema, está o novo enquadramento europeu de supervisão e de resolução, que coloca o sistema de ‘bail-in’ (e como tal os depositantes acima de 100 mil euros ) como forma “padronizada” de intervenção nos bancos em risco.