Que a comissão parlamentar do Banif venha rápido

Citamos

Económico Opinião Tiago Freire

O Governo não gostou do que decidiu, e defende-se com o argumento razoável de que não pôde fazer mais nem melhor. A gestão do Banif recebeu um atestado de incompetência e gesticula em vão, sinalizando a existência de alternativas.

Os accionistas arderam. O Banco de Portugal, diligentemente, vai defendendo a legalidade da decisão e as suas vantagens, mas a resolução de um banco, em qualquer cenário, é sinal do falhanço de parte do sistema. A (agora) oposição questiona timidamente o Governo, porque os telhados de vidro são grandes e ainda lhes podem cair na cabeça. E Bruxelas vai, como de costume, lavando as suas mãos, em dois sentidos. Lava a mão direita atacando o Executivo anterior, com Maria Luís Albuquerque à cabeça; e lava a esquerda isolando Mário Centeno e Carlos Costa, apesar de a Comissão Europeia e o BCE terem tomado boa parte das decisões que, tardiamente, forçaram o desfecho do caso Banif, mais uma vez num contra-relógio ao fim de semana.

A anterior ministra de Estado e das Finanças está a tornar-se no bombo da festa, nomeadamente por uma Comissão Europeia que quer eximir-se de responsabilidades que também tem. Bruxelas sentiu-se despeitada por Albuquerque não ter querido, ou não ter sabido, dar resposta satisfatória às suas pressões e aproveita agora para a sacrificar no altar da culpa. Uma pergunta: esse comportamento seria o mesmo se Maria Luís Albuquerque ainda fosse ministra e não apenas uma deputada da oposição?
Com tanto barulho e ainda tanta poeira no ar (saliente-se o acompanhamento assertivo, ainda que algo demagógico, que o Bloco de Esquerda tem feito do tema Banif), é urgente dar início à comissão parlamentar de inquérito ao caso. Que o exemplo da comissão BES (magistralmente dirigida por Fernando Negrão e que deveria repetir agora o cargo) seja mais uma vez aproveitado. E, já agora, que haja uma pressão acrescida dos deputados da nação para ouvir os responsáveis europeus.

Recorde-se que, na comissão anterior, Joaquín Almunia andou meses a “fazer de morto”, fugindo à inquirição.

Com cada vez mais poder de decisão nas mãos de responsáveis de autoridades europeias, os seus cabais esclarecimentos são absolutamente essenciais e não devem, por regra, limitar-se a comunicados escritos por gabinetes de advogados.

Precisamos, todos, de saber a verdade, toda a verdade. E isso não será possível se admitirmos ter toda a exigência com os responsáveis portugueses mas formos tolerantes com a falta de colaboração de instituições como o BCE ou a Direcção-Geral da Concorrência. Quem não deve não teme.