Caso Banif: Parlamento aprova comissão de inquérito e chumba auditoria externa

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Público

PSD garantiu que quer investigar “tudo e todos, doa a quem doer”. Proposta de auditoria foi chumbada pela esquerda.

Há três certezas sobre o Banif: a comissão de inquérito foi aprovada esta sexta-feira por unanimidade, a auditoria externa proposta por PSD e CDS foi chumbada pela esquerda e o atirar de culpas andará na ponta do dedo apontado entre a direita e o PS, envolvendo o actual e o anterior governo, os supervisores e as instituições europeias. O CDS subiu à tribuna do Parlamento para alargar o espectro, dizendo que “a responsabilidade é do Estado, é de todos”.

Na apresentação da proposta do PSD de criação da comissão de inquérito, o deputado António Leitão Amaro defendeu que a comissão de inquérito ao Banif “possa investigar tudo e todos, sem tabus e sem reservas, doa a quem doer” – “e ninguém compreenderia que alguém a recusasse, como se tivesse algo a esconder”. O PSD quer investigar a “actuação das administrações do Banif, dos supervisores, em especial o Banco de Portugal (BdP), dos governos sem excepção, e das instituições europeias”, e garante que o “único compromisso” do PSD “é com a verdade”.

“Queremos investigar todos os factos relevantes, nada deve escapar ao escrutínio e nenhuma responsabilidade pode ser abafada”, defendeu António Leitão Amaro que deixou uma longa lista de dúvidas a que a comissão de inquérito deve responder – da resolução à factura, do funcionamento da supervisão às ordens das instituições europeias. E pediu um “esforço total de esclarecimento e de cooperação institucional acima dos interesses partidários”. Além da comissão de inquérito, a proposta do PSD inclui a realização de uma auditoria externa e independente ao processo Banif.

O comunista Miguel Tiago encontrou, no entanto, uma lacuna na intervenção e nas dúvidas de Leitão Amaro: “Omitiu de forma deliberada que o antigo Governo deu aos banqueiros do Banif mais de mil milhões de euros, nada fez para reaver uma parte, e demitiu-se de acompanhar o banco.” O deputado disse que o PCP votará contra a auditoria externa proposta pelo PSD porque estas “servem para ir escondendo os problemas ao longo dos anos”, como o provou o caso BES. Miguel Tiago aproveitou para insistir que a solução é “o controlo público da banca”.

O socialista João Galamba seguiu-lhe o caminho: PSD/CDS “empurraram o caso com a barriga durante três aumentando os custos e desvalorizando os activos”, “meteram lá o dinheiro e esconderam o processo negocial com a Comissão Europeia e os prazos que esta foi definindo”. “Ficava-lhe bem reconhecer esses factos.”

A bloquista Mariana Mortágua pegou nas perguntas de Leitão Amaro e devolveu-lhas, acrescentando todos os passos dados ou que o deveriam ter sido durante o Governo PSD/CDS, e apontando: “Às perguntas deste debate quem tem que responder são vocês.”

Não se percebeu se o PS é a favor ou não da auditoria externa proposta pelo PSD, mas o Bloco desconfia das intenções dos sociais-democratas. “Propõe uma auditoria externa que não tem tempo para chegar ao fim durante o prazo da comissão para a esvaziar e adiar à espera das conclusões”, disse Mariana Mortágua, prometendo que uma auditoria será a primeira proposta do Bloco dentro da comissão. “Não podemos continuar a assistir ao jogo infantil de ver o BdP a atira culpas para a Comissão Europeia, esta para o antigo Governo, este para o actual Governo, o Banif a dizer que a culpa é do BdP. É um passa-culpas que quando chega ao fim ninguém dá a cara”, criticou Mariana Mortágua.

O social-democrata Duarte Pacheco pegou na recusa do PCP à auditoria externa independente para dizer que os partidos que suportam o Governo não querem apontar as responsabilidades políticas. “De que têm medo? O que querem esconder ou salvaguardar?”, questionou. Também defendeu que os deputados que já têm conclusões devem pedir escusa de participar na comissão de inquérito, apontando o dedo ao socialista Carlos Pereira que fizera duras críticas ao anterior Governo, incluindo a de que PSD e CDS “esconderam o apodrecimento do Banif”. Leitão Amaro usou a mesma táctica, acusando a esquerda de já ter tirado conclusões e querer acabar com a comissão de inquérito em 16 minutos – o tempo das intervenções iniciais de Miguel Tiago, João Galamba e Mariana Mortágua.