Venda do Banif está por explicar, diz João Salgueiro

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Rádio Renascença

Em entrevista ao programa “Terça à Noite”, da Renascença, o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos diz que o Banif caiu às mãos da União Europeia, que “trata as coisas como se fosse o quintal deles”.

A venda do Banif aos espanhóis do Santander “merecia e merece ser melhor explicada” porque, “aparentemente, havia propostas melhores”, afirma o economista João Salgueiro em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença. Em causa está a venda relâmpago ao Santander por 150 milhões de euros, no final de 2015.

De acordo com o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos, “não foi bem explicado porque é que só aparece um concorrente no final”.

João Salgueiro recorda ainda notícias que anteciparam a queda do Banif antes dela se verificar e refere em tom irónico: “Há uma senhora que diz qualquer coisa sobre a eutanásia, há logo um processo crime de investigação, há divulgação de notícias que põem em causa o sigilo bancário, não é averiguado, não tem importância, e também é crime”.

O Governo também não está isento de críticas, uma vez que era accionista maioritário do Banif, com 60% do capital, desde que o banco recorreu a ajuda estatal. Salgueiro conclui, por isso, que “o Estado português não se podia afastar daquilo”, “não é possível dizer que alguém vai ser responsável por essa área e não conhecia o problema. Conhecia-se”.

Depois do Banif, Caixa e Novo Banco são os próximos

Para João Salgueiro, o Banif caiu às mãos da União Europeia (UE) e não vai parar aqui. Segundo o economista, “é fácil suspeitar que isto é o paradigma do que vai acontecer nos outros casos a seguir”.

“Estou a falar [da venda] do Novo Banco, estou a falar da Caixa Geral de Depósitos, que tem sido um entrave a que se reforce o capital. Por um lado, diz que é obrigado a reforçar o capital, por outro lado, proíbe-se o aumento porque são ajudas de Estado. Isto não pode ser”, declara.

O ex-ministro de Estado e das Finanças defende que “estamos a viver num mundo em que a UE trata as coisas como se fosse o quintal deles”, “é contra os Tratados”, assim como “é contra os Tratados descriminar em função da natureza dos proprietários das entidades, os bancos privados, cooperativos ou públicos deviam ser tratados da mesma maneira, não podia haver discriminação em função da natureza do accionista.”

“Falsa partida” entre Governo e governador

João Salgueiro diz que as declarações públicas de desentendimento entre o Governo e o Banco de Portugal foi uma “falsa partida que, felizmente, se percebeu logo que não fazia muito sentido”.

Para João Salgueiro, o Banif caiu às mãos da União Europeia (UE) e não vai parar aqui. Segundo o economista, “é fácil suspeitar que isto é o paradigma do que vai acontecer nos outros casos a seguir”.

“Estou a falar [da venda] do Novo Banco, estou a falar da Caixa Geral de Depósitos, que tem sido um entrave a que se reforce o capital. Por um lado, diz que é obrigado a reforçar o capital, por outro lado, proíbe-se o aumento porque são ajudas de Estado. Isto não pode ser”, declara.

O ex-ministro de Estado e das Finanças defende que “estamos a viver num mundo em que a UE trata as coisas como se fosse o quintal deles”, “é contra os Tratados”, assim como “é contra os Tratados descriminar em função da natureza dos proprietários das entidades, os bancos privados, cooperativos ou públicos deviam ser tratados da mesma maneira, não podia haver discriminação em função da natureza do accionista.”

“Falsa partida” entre Governo e governador

João Salgueiro diz que as declarações públicas de desentendimento entre o Governo e o Banco de Portugal foi uma “falsa partida que, felizmente, se percebeu logo que não fazia muito sentido”.

A expansão da banca espanhola para Portugal tem alimentado o debate sobre a possibilidade dos maiores bancos portugueses serem comprados por espanhóis. João Salgueiro defende que o problema não é a nacionalidade de quem compra, mas a concentração.

“Não me agrada nada que estivéssemos na mão dos bancos de um único país, espanhóis ou outros, se fossem todos chineses também não me agradava, porque perdemos a independência”, afirma em entrevista àRenascença.

Questionado sobre a importância da soberania bancária num mundo onde os capitais nunca tiveram tanta mobilidade, o economista defende que “se um banco dá crédito de risco não vai dar a Portugal, dá no seu país, tem uma justificação muito melhor”.

Em conclusão, “nós ficamos subalternizados”. Pelo contrário, “se forem bancos de vários países, ainda haverá alguma concorrência entre eles”, diz, mas a melhor solução seriam “bancos de proximidade.”

Uma Europa com poucos e grandes bancos

João Salgueiro rejeita a existência de uma estratégia europeia para que a Espanha domine o sistema financeiro da Península Ibérica, mas admite que pode existir num plano mais abrangente. “Se houver não é por causa de Portugal e Espanha, é uma estratégia mais ampla, mas duvido que isso dê bons resultados na Europa”, frisa.

Segundo o economista, poderemos estar perante “uma tentação tecnocrática de considerar que é mais fácil a política monetária se houverem alguns grandes agentes, que tenham dimensão para terem influência no mercado”.

Salgueiro dá como exemplo o Banco Central Europeu (BCE), quando decide reanimar a economia. Nesta situação e de acordo com esta teoria “há meia dúzia de parceiros que são eficazes a fazer isso, se houver centenas de bancos eles acham que a resposta é pior”.

O ex-ministro das Finanças não concorda com esta teoria. Pelo contrário, diz mesmo que “estamos a entrar num momento do surrealismo em relação às políticas europeias”.

“Aqui há uns anos todos estavam de acordo que era mau haver bancos tão grandes, ‘Too big to fail’ [grande demais para falir] cria problemas insolúveis, agora estão a criar-se bancos que se têm um problema são um problema para a Europa”, conclui João Salgueiro.