Quem é António Varela, o administrador de saída do Banco de Portugal?

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Foi nomeado por Maria Luís Albuquerque para o Banco de Portugal após a queda do BES. Ficou com a supervisão directa dos bancos. Tinha estado na administração do Banif. Também passou pela Cimpor. Esteve em várias polémicas.

“A supervisão não podia ter melhor titular do que o Dr. António Varela”. As palavras, de Maria Luís Albuquerque, foram proferidas quando o nome por si escolhido se juntou à equipa do Banco de Portugal. Era Setembro de 2014, um mês depois da derrocada do Banco Espírito Santo. Varela entrou e tirou o pelouro da supervisão prudencial, actuação directa sobre os bancos, ao vice-governador, Pedro Duarte Neves, na altura sob forte crítica pública.

No discurso de tomada de posse de Varela, a então ministra das Finanças foi dura com o antecessor (“face aos desafios que o Banco de Portugal enfrenta, é fundamental o reforço das competências nas áreas mais críticas de actuação”; “a supervisão é crítica para assegurar a estabilidade financeira”) e elogiosa para com o novo administrador do regulador (“uma pessoa bem preparada”).

E o curriculum de António Varela tem sido notícia desde aí mas, no caso da esquerda política, com fortes ataques. Antes de ir para o regulador do sector financeiro, em Setembro de 2014, o administrador do Banco de Portugal, que agora pede demissão, tinha estado no Banif. Também aí esteve num cargo de nomeação do Ministério das Finanças, na altura com Vítor Gaspar como ministro e Maria Luís Albuquerque como secretária de Estado do Tesouro e Finanças. Integrou a administração do banco fundado por Horácio Roque em Março de 2013, enquanto membro não executivo. Foi um nome escolhido para representar o Estado na administração após a injecção de 1,1 mil milhões de euros no arranque desse ano.

 

António Varela saiu do Banif e foi para o Banco de Portugal supervisioná-lo. Os dois papéis tornam-no num nome incontornável para os vários partidos que o colocam na lista de audições convocadas para a comissão de inquérito ao Banif, um banco que caiu e necessitou de intervenção estatal (com uso de 2.255 milhões de euros).
O administrador que não decidiu o Banif

 

Na reunião do conselho de administração do Banco de Portugal que decidiu a resolução aplicada ao Banif, a 20 de Dezembro de 2015,António Varela optou por se ausentar da sala, para não ter de decidir (a decisão é tomada mas em “solidariedade” com os restantes membros). Em causa estava um “motivo de impedimento” apresentado pelo administrador e aceite pelo governador Carlos Costa, “em virtude de ser depositante do Banif e detentor de valores mobiliários por este emitidos”.

cotacao[Varela não esteve na reunião que decidiu a resolução do Banif porque] apresentou um motivo de impedimento, que o governador considerou justificado nos termos da lei, em virtude de ser depositante do Banif e detentor de valores mobiliários por este emitidos. ACTA DO BANCO DE PORTUGAL Deliberação da reunião das 23:30 de 20 de Dezembro de 2015

 

Aliás, os vários investimentos que Varela tem na banca foram notícia no Público, em Abril de 2015: O administrador do Banco de Portugal mantinha as acções de bancos por si regulados, como o Banif,Santander e o BCP, mesmo depois de assumir o cargo no regulador.

Em relação a essa notícia, o Banco de Portugal afirmou, na altura, que criou um grupo de trabalho para “estudar e propor soluções que neutralizem potenciais conflitos de interesse emergentes da detenção (…) de carteiras constituídas antes da assunção de funções”.

 

Varela fora da venda do Novo Banco

A reunião da resolução do Banif não foi a única em que a participação de António Varela foi questionada. Aquando da contratação da TC Capital para assessorar o primeiro concurso internacional para a venda do Novo Banco, depois falhado, o governador teve de explicar-se no Parlamento. Isto porque a TC Capital, escolhida a par do BNP Paribas, pertence a Phillipe Sacerdot, antigo director-adjunto da banca de investimento do UBS, e António Varela também trabalhou na unidade do UBS em Portugal. Carlos Costa respondeu que o administrador participou na “decisão formal” que definiu a contratação mas não na “decisão substancial”. “A reunião que iniciou o processo não contou com a presença do administrador que é motivo da sua preocupação”,disse o governador no Parlamento.

Apesar de olhar para os rácios do Novo Banco, no âmbito da supervisão prudencial, António Varela não tinha poder em relação à sua venda. Estando com o pelouro da supervisão prudencial (era aliás membro do Conselho de Supervisão do Mecanismo Único de Supervisão, cargo que fica vazio com a sua demissão), António Varela ficou afastado do processo de venda do Novo Banco. Uma confirmação dada pelo Banco de Portugal (devido à “separação operacional entre as funções de supervisão e de resolução”) depois de o Expresso ter noticiado a relação “difícil” entre Carlos Costa e António Varela.

Sobre a ausência de Varela nos assuntos relativos à resolução e venda do BES, foi explicado pelo regulador que “o Dr. António Varela solicitou em Maio passado ao governador, que concordou, a libertação de qualquer envolvimento no processo de venda do Novo Banco, salvo o que decorresse do exercício da supervisão sobre a instituição ou da apreciação e votação colegiais, em conselho de administração das deliberações sobre aquela transacção e matérias conexas em que não devesse considerar-se impedido”.