Estudo do BCE adverte para alta exposição de Portugal ao Santander

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Dinheiro Vivo

Em vésperas de testes de stress do BCE, artigo mostra o que pode suceder cá se a banca espanhola tiver de ajustar rácios de capital

A economia portuguesa é muito sensível a choques externos. Um dos canais de transmissão, senão o mais relevante, é o sistema bancário, em particular o espanhol pelo peso grande e crescente que tem em Portugal. E em particular o grupo Santander, que aprofundou ainda mais os laços com Portugal ao comprar o Banif no final de 2015.

Na terça-feira, o Banco Central Europeu (BCE) divulgou um estudo assinado por três economistas — Marco Gross, Christoffer Kok and Dawid Zochowski — no qual ilustra a exposição “significativa” da economia portuguesa ao Santander caso este banco tenha de reforçar a sua base de capital e isso implique mais restrições à concessão de crédito, por exemplo.

O artigo titulado O impacto do capital bancário na atividade económica descreve o que pode acontecer aos sistemas bancários e às economias quando o regulador decide impor rácios de capital mais exigentes. Este ano, a Autoridade Bancária Europeia e o Banco Central Europeu vão repetir mais uma ronda de testes de esforço (testes de stress) aos 51 maiores bancos da Europa, que representam cerca de 70% do sector europeu, grupo no qual o gigante Santander está incluído.

Os resultados serão divulgados no início do terceiro trimestre, segundo a Autoridade Bancária. No final do ano passado, a instituição presidida por Ana Botín garantia que o banco cumpria “folgadamente” as imposições regulatórias do BCE. Ainda assim, os economistas decidiram estudar as interações entre o que acontece no banco e um país específico: Portugal.

Ainda que os autores não estejam a antecipar uma necessidade de maior desalavancagem no Santander, eles estudam o que acontece quando há um choque de 1 ponto percentual no rácio de capital que “resulta da imposição de uma almofada extra de capital” por parte das autoridades (BCE). Que tipo de choques? O choque pode assumir diversas formas. Pode implicar uma redução no crédito concedido se o banco decidir manter os níveis de capital (ações), reduzindo ainda os seus níveis de dívida em conformidade. Este é o choque do tipo 1. Ou pode ser um choque expansionista ou de tipo 2: confrontado com a exigência do BCE, o banco aumenta capital o que lhe permite vender mais crédito, mas mantém o nível da sua dívida. “Como ilustração, tomamos o exemplo do grupo Santander (sediado em Espanha) e do sistema bancário espanhol como ponto de partida para duas simulações”.

E “escolhemos Portugal como exemplo de resposta de outro país [que não Espanha] já que o Santander e o sistema espanhol têm exposições significativas a Portugal”, dizem. Que consequências, então? Quando o choque é do tipo 1 (o banco baixa o nível de atividade creditícia e não reforça capitais), os impactos negativos são muito pronunciados em Espanha e “significativos” em Portugal.

“As respostas do PIB real português são significativas, embora menos pronunciadas do que em Espanha”, precisam os autores. Na simulação 1, o ajustamento em baixa na atividade do grupo Santander conduz a uma redução da taxa de crescimento de longo prazo (no fundo, o potencial da economia) em 0,4 pontos percentuais. É muito. O FMI projeta para Portugal um crescimento de 1,1% no longo prazo. A computação dos técnicos do BCE mostra que o crescimento nacional fica-se pelos 0,7%.

Se o choque for via sistema bancário espanhol (todo), o prejuízo sobe para o dobro: menos 0,8 pontos percentuais de crescimento real a menos, o que colocaria a economia à beira da estagnação. Na simulação de tipo 2, a mais benigna, em que o banco aumenta capital para poder expandir o negócio, os autores concluem que os ganhos para a retoma de Portugal seriam “ligeiramente positivos, embora insignificantes”.