O Northern Rock e o Banif

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Dinheiro Vivo Ricardo Reis Banif

Só em Portugal é que cresceu tanto a tese de que a TVI devia ser condenada. Inglaterra tem maior tradição de respeito pela liberdade de imprensa

As comissões de inquérito na Assembleia da República têm um papel na construção da história. O relatório sobre o Banif, por exemplo, será o ponto de partida quando no futuro se estudar o que aconteceu. Pode por isso ser útil lembrar uma história recente: o colapso do Northern Rock no Reino Unido em 2007. Tal como Banif, o Northern Rock não era um dos maiores bancos do seu país.

Tal como o Banif, ele tinha crescido rapidamente, assente numa estratégia com dois pilares. Do lado dos créditos, o Northern Rock especializava-se em hipotecas, em grande expansão no início do século. Do lado dos débitos, tinha uma forte presença online e a maioria dos seus depositantes usava o website para fazer as suas operações bancárias. Já o Banif cresceu à conta do sector da construção civil e dos depósitos dos emigrantes açorianos.

Tal como no Banif, os problemas do Northern Rock começaram com uma crise externa – o subprime americano no caso do banco britânico, a crise da dívida pública no caso do banco madeirense. Tal como o Banif, o Northern Rock foi primeiro gerido pelo Estado durante uns anos e por fim vendido a outro banco em 2012. Os antigos gestores, quer do Northern Rock quer do Banif, ainda hoje acham que com mais algum tempo e uma pontinha de sorte teria acabado tudo bem. No entanto, o Northern Rock precisou de ajuda.

A 14 de setembro de 2007, o Banco de Inglaterra comunicou aos media que tinha aberto uma linha de crédito ao banco. As autoridades concluíram que, com esta ajuda para resolver problemas de curto prazo, o Northern Rock estaria sólido. Só que, nas redações, os jornalistas receberam a novidade de outra forma. Nas notícias dessa noite, a ajuda do Banco de Inglaterra foi descrita não como uma solução, mas antes como um diagnóstico de que se confirmavam problemas. Tal como nos rodapés da TVI sobre o Banif, o tom e a forma como saiu a notícia fez muita diferença. Assustados, alguns depositantes ligaram-se à internet para transferir o seu dinheiro.

Só que quem desenhou o website do Northern Rock não acautelou ter tantas pessoas num curto de espaço de tempo a fazer transferências. O website entrou em crash e não funcionou durante a noite. Milhares de pessoas, incertas com a notícia dos media britânicos, foram à internet verificar e viram o website em baixo. Convenceram-se de que havia mesmo problema, ao contrário do que diziam as autoridades. Na manhã seguinte, estava uma fila à porta da agência do Northern Rock. Num espaço de horas, o website voltou a estar online, as portas do banco abriram, e saíram tantos milhares de milhões que o banco não sobreviveu.

Tal como no Banif, oito anos depois. Os responsáveis do Northern Rock culparam os media e os informáticos pela sua miséria, tal como os responsáveis do Banif culparam a TVI e os reguladores. Mas só em Portugal é que cresceu tanto a tese de que a TVI devia ser condenada pela comissão de inquérito, violentamente censurada na opinião pública, e multada pelo regulador. A Inglaterra tem uma tradição de respeito pela liberdade de imprensa e de combate à censura que nós ainda não temos.

Professor de Economia na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque