Archive for the ‘Novo Banco’ Category

Venda do Banif está por explicar, diz João Salgueiro

Quarta-feira, Março 2nd, 2016

Citamos

Rádio Renascença

Em entrevista ao programa “Terça à Noite”, da Renascença, o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos diz que o Banif caiu às mãos da União Europeia, que “trata as coisas como se fosse o quintal deles”.

A venda do Banif aos espanhóis do Santander “merecia e merece ser melhor explicada” porque, “aparentemente, havia propostas melhores”, afirma o economista João Salgueiro em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença. Em causa está a venda relâmpago ao Santander por 150 milhões de euros, no final de 2015.

De acordo com o antigo presidente da Associação Portuguesa de Bancos, “não foi bem explicado porque é que só aparece um concorrente no final”.

João Salgueiro recorda ainda notícias que anteciparam a queda do Banif antes dela se verificar e refere em tom irónico: “Há uma senhora que diz qualquer coisa sobre a eutanásia, há logo um processo crime de investigação, há divulgação de notícias que põem em causa o sigilo bancário, não é averiguado, não tem importância, e também é crime”.

O Governo também não está isento de críticas, uma vez que era accionista maioritário do Banif, com 60% do capital, desde que o banco recorreu a ajuda estatal. Salgueiro conclui, por isso, que “o Estado português não se podia afastar daquilo”, “não é possível dizer que alguém vai ser responsável por essa área e não conhecia o problema. Conhecia-se”.

Depois do Banif, Caixa e Novo Banco são os próximos

Para João Salgueiro, o Banif caiu às mãos da União Europeia (UE) e não vai parar aqui. Segundo o economista, “é fácil suspeitar que isto é o paradigma do que vai acontecer nos outros casos a seguir”.

“Estou a falar [da venda] do Novo Banco, estou a falar da Caixa Geral de Depósitos, que tem sido um entrave a que se reforce o capital. Por um lado, diz que é obrigado a reforçar o capital, por outro lado, proíbe-se o aumento porque são ajudas de Estado. Isto não pode ser”, declara.

O ex-ministro de Estado e das Finanças defende que “estamos a viver num mundo em que a UE trata as coisas como se fosse o quintal deles”, “é contra os Tratados”, assim como “é contra os Tratados descriminar em função da natureza dos proprietários das entidades, os bancos privados, cooperativos ou públicos deviam ser tratados da mesma maneira, não podia haver discriminação em função da natureza do accionista.”

“Falsa partida” entre Governo e governador

João Salgueiro diz que as declarações públicas de desentendimento entre o Governo e o Banco de Portugal foi uma “falsa partida que, felizmente, se percebeu logo que não fazia muito sentido”.

Para João Salgueiro, o Banif caiu às mãos da União Europeia (UE) e não vai parar aqui. Segundo o economista, “é fácil suspeitar que isto é o paradigma do que vai acontecer nos outros casos a seguir”.

“Estou a falar [da venda] do Novo Banco, estou a falar da Caixa Geral de Depósitos, que tem sido um entrave a que se reforce o capital. Por um lado, diz que é obrigado a reforçar o capital, por outro lado, proíbe-se o aumento porque são ajudas de Estado. Isto não pode ser”, declara.

O ex-ministro de Estado e das Finanças defende que “estamos a viver num mundo em que a UE trata as coisas como se fosse o quintal deles”, “é contra os Tratados”, assim como “é contra os Tratados descriminar em função da natureza dos proprietários das entidades, os bancos privados, cooperativos ou públicos deviam ser tratados da mesma maneira, não podia haver discriminação em função da natureza do accionista.”

“Falsa partida” entre Governo e governador

João Salgueiro diz que as declarações públicas de desentendimento entre o Governo e o Banco de Portugal foi uma “falsa partida que, felizmente, se percebeu logo que não fazia muito sentido”.

A expansão da banca espanhola para Portugal tem alimentado o debate sobre a possibilidade dos maiores bancos portugueses serem comprados por espanhóis. João Salgueiro defende que o problema não é a nacionalidade de quem compra, mas a concentração.

“Não me agrada nada que estivéssemos na mão dos bancos de um único país, espanhóis ou outros, se fossem todos chineses também não me agradava, porque perdemos a independência”, afirma em entrevista àRenascença.

Questionado sobre a importância da soberania bancária num mundo onde os capitais nunca tiveram tanta mobilidade, o economista defende que “se um banco dá crédito de risco não vai dar a Portugal, dá no seu país, tem uma justificação muito melhor”.

Em conclusão, “nós ficamos subalternizados”. Pelo contrário, “se forem bancos de vários países, ainda haverá alguma concorrência entre eles”, diz, mas a melhor solução seriam “bancos de proximidade.”

Uma Europa com poucos e grandes bancos

João Salgueiro rejeita a existência de uma estratégia europeia para que a Espanha domine o sistema financeiro da Península Ibérica, mas admite que pode existir num plano mais abrangente. “Se houver não é por causa de Portugal e Espanha, é uma estratégia mais ampla, mas duvido que isso dê bons resultados na Europa”, frisa.

Segundo o economista, poderemos estar perante “uma tentação tecnocrática de considerar que é mais fácil a política monetária se houverem alguns grandes agentes, que tenham dimensão para terem influência no mercado”.

Salgueiro dá como exemplo o Banco Central Europeu (BCE), quando decide reanimar a economia. Nesta situação e de acordo com esta teoria “há meia dúzia de parceiros que são eficazes a fazer isso, se houver centenas de bancos eles acham que a resposta é pior”.

O ex-ministro das Finanças não concorda com esta teoria. Pelo contrário, diz mesmo que “estamos a entrar num momento do surrealismo em relação às políticas europeias”.

“Aqui há uns anos todos estavam de acordo que era mau haver bancos tão grandes, ‘Too big to fail’ [grande demais para falir] cria problemas insolúveis, agora estão a criar-se bancos que se têm um problema são um problema para a Europa”, conclui João Salgueiro.

 

 

Comissão Europeia defende acção do Banco de Portugal no Banif e no Novo Banco

Sexta-feira, Fevereiro 26th, 2016

Citamos

Económico

Bruxelas garante que as autoridades se esforçaram para salvaguardar a estabilidade financeira.

A Comissão Europeia defendeu hoje o Banco de Portugal na resolução do Banif e na retransmissão de obrigações seniores do Novo Banco para o ‘banco mau’, BES, considerando que houve “um esforço” para salvaguardar a estabilidade financeira nacional.

“As autoridades esforçaram-se por salvaguardar a estabilidade financeira ao longo de um ano particularmente difícil, marcado pela resolução do Banco Internacional do Funchal (Banif)”, defende a Comissão Europeia, no relatório específico sobre Portugal, no qual é dado seguimento ao mecanismo de alerta de desequilíbrios macroeconómicos, no âmbito do Semestre Europeu.

Bruxelas lembra que, em dezembro de 2015, o Banco de Portugal (BdP) decidiu proceder à resolução do Banif, “após ter ficado evidente não ser possível restaurar, de forma autónoma, a viabilidade do banco”.

Além disso, no ano passado, o sistema bancário português “foi abalado pelo anúncio da decisão do BdP de transferir cinco obrigações seniores selecionadas do Novo Banco para colmatar a insuficiência de capital identificada no teste de esforço realizado pelo Banco Central Europeu (BCE), em novembro de 2015”, à instituição liderada por Stock da Cunha.

“As medidas em relação ao Novo Banco foram tomadas para salvaguardar a estabilidade do sistema financeiro e afastar a incerteza que rodeou a posição de capital do banco nos anteriores processos de venda”, sublinha a Comissão Europeia.

A 29 de dezembro, o BdP determinou transferir para o BES a responsabilidade pelas obrigações não subordinadas por este emitidas e que foram destinadas a investidores institucionais (como fundos de investimento, públicos ou privados), num total de 1.985 milhões de euros.

Com esta medida – que reverteu a que tinha sido tomada após a resolução do BES, quando o BdP decidiu não imputar perdas aos credores seniores, passando a dívida não subordinada do BES para o Novo Banco -, o capital do Novo Banco foi reforçado em 1.985 milhões de euros, permitindo-lhe, assim, cumprir as exigências regulamentares.

Por outro lado, a Comissão Europeia insiste que “os níveis de rendibilidade dos bancos continuam a ser modestos”, registando, no entanto, “avanços no que respeita à posição estrutural de liquidez e à solvabilidade”.

Bruxelas considera que a melhoria da posição de liquidez “reflete um comportamento muito resiliente dos depósitos e uma contração do crédito, ao passo que os progressos significativos nos níveis de solvabilidade apontam para uma maior capacidade de absorção de perdas da maioria dos bancos”.

No entanto, salienta a Comissão, o sistema bancário continua a apresentar reduzidos níveis de rendibilidade, refletindo um conjunto de “fatores adversos: baixos rendimentos líquidos de juros, contração da procura de crédito, reconhecimento de montantes significativos de imparidades e, por último, um progresso limitado na redução dos custos operacionais por parte do setor bancário”.

Santander ficou com “excelente ‘filet mignon’” ao comprar Banif – Bagão Félix

Segunda-feira, Fevereiro 1st, 2016

Citamos

Lusa

Bagão Félix considera que a venda do Banif foi “uma forma de recapitalizar o Santander”, que comprou “um excelente ‘filet mignon’”, e não compreende que “o problema seja deixado para uma instituição que não é democraticamente escrutinada”.

Em entrevista à agência Lusa, o antigo ministro das Finanças diz ver “com muita preocupação” a solução encontrada para o Banif, que foi comprado pelo Santander Totta por 150 milhões de euros, no âmbito de uma medida de resolução determinada pelo Banco de Portugal (BdP) em dezembro do ano passado.

Bagão Félix entende que “há muito nevoeiro que tem de se dissipar” e lamenta o “jogo do empurra” de culpas e de responsabilidades, considerando que “todos se empurram uns para os outros, o Banco Central Europeu [BCE] para o BdP, o BdP para o BCE, o Governo para o BdP”, o que faz com que seja “uma responsabilidade muito diluída e muito difusa”.

O antigo vice-governador do BdP afirmou que a solução encontrada para o Banif foi “uma coisa feita à pressa porque no dia 01 de janeiro entrava [em vigor] o sistema de resgate interno”.

“Não há nada como sacrificar os que não têm possibilidade de contestar, que são os contribuintes, que são os que não tem qualquer alternativa e acabam por pagar”, disse, reiterando que há ainda muitas questões por responder.

Bagão Félix recorda que, antes da medida de resolução, os rácios de capital, de solvabilidade e de liquidez imediata do Banif eram “satisfatórios e acima dos mínimos”, que o banco “estava num processo de desalavancagem de ativos”, que foram avaliados a preços que considera “muito distantes da realidade, o que levou à deterioração das condições do banco”.

O economista referiu-se a uma carta “escrita pela principal dirigente supervisora do BCE ao BdP”, em que Frankfurt “dizia que não há mais hipótese, que [a venda] tem de ser nestas condições e para o banco Santander”, e afirmou mesmo que “esta também foi uma forma de recapitalizar o Santander, comprando por 150 milhões de euros um excelente ‘filet mignon’ despojado de tudo o que é mau”.

Para Bagão Félix, isto “não se consegue compreender” e “aqui as coisas carecem de esclarecimento e de transparência, porque de facto a fatura vai para os contribuintes [que] têm de perceber porque pagam esta fatura”.

O ex-governante considera que também quanto ao Novo Banco “se exige alguma explicação”, depois de o BdP ter decidido, a 29 de dezembro, passar para o Banco Espírito Santo (BES) a responsabilidade pelas obrigações não subordinadas ou seniores destinadas a investidores institucionais e que, na resolução do BES, a 03 de agosto de 2014, ficaram sob a responsabilidade do Novo Banco.

Bagão Félix afirmou que, nos testes de ‘stress’ feitos pelo BCE aos maiores bancos europeus, “só nas condições devastadoras é que o Novo Banco entrava numa situação de não cumprir os rácios”, mas “nas outras cumpria perfeitamente”.

“A maior parte dos bancos europeus, os ‘too big to fail’ [demasiado grandes para falir], também não resistiriam a esses testes de ‘stress’ nas condições devastadoras, o que me leva a crer que tem de haver uns banquinhos relativamente mais pequenos que servem de cobaia, de teste, de experimentalismo e para robustecer esses mesmos bancos europeus”, lamentou.

O economista referiu ainda que, no caso português, os quatro bancos que tiveram dificuldades acabaram por ter soluções diferentes: “o BPN foi nacionalização, o BPP foi liquidação, o Banif, que não chega a 4% do mercado, é uma mistura de resolução por via de ‘bail-out’ e também de algum ‘bail-in’ [resgate interno], e o Novo Banco é um bail-in”, disse, reiterando que “é demasiado experimentalismo”.

Quanto à prestação do BdP, Bagão Félix começa por dizer que “imputar ao BdP uma cultura de negociação é um erro”.

“Fui vice-governador do BdP há 20 anos e o BdP não tem cultura negocial. Portanto, não é que seja mais ou menos competente, não tem essa cultura”, explicou, lamentando, no entanto, que haja a ideia de que, “quando as coisas correm mal, a culpa nunca é dos governos, é do BdP”.

“Coitado, o BdP tem as costas muito largas. E não estou a desculpar o BdP – acho que o banco não tem cultura para este tipo de coisas – mas não estava preparado, como aliás o BCE também não está preparado”, afirmou.

Bagão Félix disse ainda não compreender que, “havendo custo para os contribuintes, o problema seja deixado para uma instituição que não é democraticamente escrutinada, na Europa, o BCE, em Portugal, o BdP”.

“De repente, o BdP diz que vamos ter de pagar dois mil a três mil milhões de euros por um banco que não chega a 4% do mercado, imputando aos contribuintes… O BdP imputando aos contribuintes? Como é isso? A última palavra tem de ser dos poderes democraticamente eleitos”, defendeu.

Os sete pecados mortais da banca portuguesa

Segunda-feira, Janeiro 25th, 2016

Citamos

Expresso Opinião João Vieira Pereira

O Banif não é um caso de polícia, mas devia ser
A única diferença entre o que se passou no Banif e no BES é a dimensão do buraco. E mesmo assim teremos de esperar alguns anos para saber quantos milhões separam um do outro. Na prática, o Banif era um mini-BES.

A estratégia de manutenção de poder era a mesma. Uma liderança forte que se perpetuava à frente do banco através de um esquema de financiamento a acionistas. Fossem eles particulares ou empresas, recebiam crédito em troca de participações em holdings que controlavam o próprio banco. Algo que foi feito em outras instituições bancárias.

O conselho superior do BCP, quando liderado por Jardim Gonçalves, era, na altura, o mais importante centro de negócios em Portugal. Ali se decidia quem ficava com o quê. Os cheques saíam. Em troca entravam elogios e apoios eternos à gestão.
Quando se deu a recapitalização pública do Banif, em 2012, este statu quo deveria ter sido alterado. Na verdade, tudo continuou na mesma.

O Estado meteu o dinheiro no banco, mas a gestão continuou dominada pelos anteriores acionistas. O Governo de Passos nomeou um administrador não-executivo — António Varela, atualmente o administrador do Banco de Portugal (BdP) responsável pela supervisão bancária — e um membro do conselho fiscal. Mais nada. O que a gestão fez perante a inoperância e incompetência do Estado, e de quem o representava, é tão ou mais “criminoso” do que aquilo que até ali tinha sido feito.

O vazio criado levou a que a gestão de Jorge Tomé apenas defendesse a estratégia dos acionistas históricos do Banif, minoritários até à intervenção em dezembro. Estes tentaram ganhar tempo até encontrarem alguém que quisesse pagar para eles continuarem a mandar no banco… Só assim se compreende que tivessem apresentado numerosos planos de reestruturação junto de Bruxelas (sete ou oito). Todos chumbados. Ou melhor, todos feitos para chumbar de modo a poderem continuar a tentar salvar-se.

Todo este cenário de horror acabou por custar uma fortuna aos contribuintes. Um crime de lesa-pátria.

2 – A VAIDADE

A venda do Banif ao Santander foi decidida em Bruxelas
Há varias maneiras de conseguir o que queremos. A melhor é fazer com que sejam os outros a escolherem aquilo que decidimos. Foi o que se passou no caso do Banif. Na prática, a Comissão Europeia disse ao Banco de Portugal que podia vender o banco a quem quisesse, desde que fosse ao Santander. É claro que o fizeram de forma encapotada. Mexendo cordelinhos como se fossem os donos disto tudo. Fechando uma porta aqui, outra acolá. No final a escolha era entre o Santander e o Santander.

Todo o processo foi conduzido com esse objetivo. A investigação aprofundada ao apoio do Estado ao Banif. Os avisos que irão considerar ilegal a injeção de dinheiro público. A impossibilidade de criar um banco de transição, como no BES. A obrigatoriedade de o comprador ser uma entidade com licença bancária e com um balanço capaz de conseguir aguentar o impacto de absorver o Banif. Se olharmos para o mercado português só o Santander estava nessas condições. A Europa sabia o que queria desde o início. Isto leva-nos ao próximo ponto.

3 – A PREGUIÇA

O que anda António Varela a fazer no BdP
António Varela foi quase dois anos administrador não-executivo do Banif, em representação do poder público. Nesse tempo, o Estado achou normal que, sendo o banco controlado por dinheiros públicos, a gestão do Banif continuasse a defender o interesse dos acionistas minoritários.

Esta liberdade permitiu não resolver o problema que acabou por estourar nas mãos dos contribuintes. E onde anda António Varela? Depois de ter sido nomeado por Maria Luís Albuquerque para o Banif, foi nomeado por Maria Luís Albuquerque para liderar a supervisão do BdP. Na tomada de posse, a então ministra não poupou nos elogios a Varela. Tão grandes que foram lidos como uma crítica a toda a gestão do caso BES por parte do regulador. “[A supervisão] área absolutamente crítica para assegurar a estabilidade financeira e as condições de financiamento essenciais ao crescimento sustentável, não podia ter melhor titular do que António Varela”, afirmou Maria Luís.

António Varela passou a ser apontado como o próximo governador do BdP. Estávamos em setembro de 2014. Um ano depois, o Banif rebenta debaixo do nariz do responsável pela supervisão, o mesmo que tinha sido administrador do banco. E rebenta no colo da ex-ministra das Finanças que deve estar muito arrependida de ter apostado em Varela.

4 – A GULA

Estamos condenados a só ter bancos privados espanhóis
Os eurocratas de Bruxelas e Frankfurt decidiram que a concentração da banca é fundamental. E traçaram o mapa para Portugal. E já o comunicaram, informalmente, ao Governo português. No fim do processo só restarão três grandes bancos em Portugal. Dois de capital espanhol e um de capital português. Este último será, claro, o banco público, a Caixa Geral de Depósitos (que em boa hora não foi, nem pode ser, privatizada).

Os outros estão condenados a serem adquiridos ou ‘fusionados’ com gigantes espanhóis. Esta estratégia resulta das atuais condições do mercado. Primeiro, a Europa tem demasiados bancos médios e as autoridades estão certas que para fazer frente aos grandes bancos americanos e à ameaça financeira da China a alternativa é criar gigantes.

Durante anos, Portugal não foi capaz de criar um grande banco de capital nacional. As várias tentativas fracassaram sempre. Por falta de capital ou por incompatibilidade de egos. Em Espanha, há vários gigantes, até a nível mundial.

A banca portuguesa esta descapitalizada (na realidade os bancos ditos portugueses já são dominados por capitais estrangeiros), e fechada num mercado sem crescimento, uma vez que as apostas de internacionalização deixaram muito a desejar.

Já em Espanha, os bancos precisam de ganhar quota de mercado para justificarem a quebra de rentabilidade interna. A internacionalização para mercados onde possam potenciar as sinergias é a melhor solução. E nessa estratégia Portugal surge como cabeça de lista.

Na prática, Espanha quer comprar bancos para não ter de cortar custos internamente. Ou seja, o desemprego português vai permitir sustentar empregos em Espanha. E a decisão de crédito a uma empresa portuguesa, por muito que digam que não, vai passar a ser feita em Madrid. Mas, provavelmente, não com o mesmo critério com que se concede dinheiro a empresas espanholas.

5 – A AVAREZA

O Novo Banco tem de ser vendido até ao verão

Quem quer colocar mais dinheiro no Novo Banco? Neste caso seremos todos muito sovinas. Desde que se deu a resolução do BES, já entraram no banco €4,9 mil milhões. A estes temos que somar as dívidas que não vão (aparentemente) ser pagas à Goldman Sachs no valor de €750 milhões e aos obrigacionistas seniores no valor de €2 mil milhões. E mesmo com uma gestão profissional, que tudo está a fazer para salvar o banco, os números mostram que todos os meses o banco perde dinheiro e capital.

É por isso que a venda é urgente e necessária. Quanto mais tarde for vendido menos vale o Novo Banco. Ou seja, mais teremos de pagar direta ou indiretamente. Perante os problemas históricos do banco, a herança de Salgado e para que a venda seja possível, talvez tenha de ser feito o mesmo que se fez no Banif. Separar os ativos problemáticos (nomeadamente o imobiliário) numa espécie de ‘novo Novo Banco’ e vender o resto.

Depois, há a ideia dos partidos de esquerda que o banco não deve ser vendido. Também é uma hipótese, mas como o Novo Banco perde capital todos os dias chegará uma altura em que vai ser preciso colocar lá mais dinheiro. Algo que será vedado pelas autoridades europeias. Chegados aqui, a única solução será uma nova resolução, desta vez feita pela nova Autoridade de Resolução Europeia, com custos brutais para o contribuinte e para os milhares de empregados do banco.

Foi exatamente a existência de uma autoridade de resolução a nível europeu, a partir do dia 1 de janeiro deste ano, que ditou a decisão do BdP de obrigar a transferir €2 mil milhões de obrigações seniores para absorver perdas. Era necessário fechar o perímetro do Novo Banco e acabar com qualquer autoridade do mecanismo de resolução nacional sobre o banco, pois corria-se o risco de que, no início do ano, todas as competências passassem para o novo organismo europeu.

Uma Europa que iria ter em relação ao Novo Banco um papel muito menos condescendente do que qualquer autoridade nacional. Por isso, foram feitas as contas de quanto seria necessário ir buscar para colmatar perdas que não tinham sido apuradas a 3 de agosto de 2014, e o saldo total foi pago pelos obrigacionistas. Antes eles, que os contribuintes.

6 – A IRA

O BPI está numa encruzilhada e a solução não é fácil
Fernando Ulrich é considerado um dos grandes banqueiros portugueses. Mas a história pode não vir a reconhecer-lhe esse papel. Aliás, é cada vez mais difícil conseguir colocar na mesma frase o substantivo banqueiro precedido do adjetivo grande.

O BPI tornou-se uma das referências da banca nacional mas, na ótica dos acionistas, foram cometidos vários erros ao longo dos anos. A elevada exposição à dívida pública portuguesa e grega foi um deles. O nível de crédito à habitação, hoje a sofrer com as taxas de juro a níveis historicamente baixos, foi outro. Ainda a recusa de vender o banco na OPA lançada pelo BCP, em 2007. E, claro, o facto de terem colocado todos os ovos na mesma cesta. Uma cesta que se chama Angola.

As exigências do Banco Central Europeu de que o BPI terá de passar a contabilizar o risco Angola coloca o banco numa encruzilhada. A solução de Fernando Ulrich passa por separar o banco angolano, o BFA, do BPI de modo a resolver o impacto no capital do banco que tem a decisão regulatória. Mas esse plano não é aceite por Isabel dos Santos. A empresária quer comprar mais 10% do BFA através de outra empresa que ela domina, a Unitel. Compra que muito provavelmente será financiada pelo próprio BFA.

Do lado do La Caixa só silêncio sobre o assunto. Depois de Ulrich ter sido contra a OPA que os catalães tentaram lançar sobre o BPI, em 2015, as relações nunca mais foram as mesmas. E o facto de os acionistas espanhóis terem andado a estudar a compra do Novo Banco sem avisar Fernando Ulrich terá criado mais brechas.

Por isso, é com alguma ira que certos acionistas olham para a gestão. Que caminho então para o BPI? A venda do BFA a Isabel do Santos é o cenário mais provável, mas isso obrigará o BPI a uma forte redução de custos em Portugal. A outra alternativa é lançar-se para uma aquisição que lhe permita tornar o impacto de Angola suportável. Mas para isso precisa que o La Caixa pague a fatura.

7 – A INVEJA

Uma OPA sobre o BCP é uma questão de tempo

Uma ação do BCP pouco ou nada vale. Um dia é África a puxar para baixo, outro dia é a Polónia. Nuno Amado foi o primeiro a agarrar o touro pelos cornos. Um touro que dá pelo nome de legacy — a herança. Esta palavra inglesa é a mais ouvida nos corredores da administração de muitos bancos em Portugal. Com destaque para o BCP, Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos.

Durante anos os bancos injetaram centenas de milhões de euros em empresas e negócios que hoje não valem nada. Os níveis de imparidades sobre o crédito concedido são absolutamente astronómicos. Mas muito ainda está por registar. E nesta corrida, em que ninguém queria participar, é Amado que lidera a limpeza que tinha de ser feita. Isso custou ao banco muito dinheiro, muito capital e muitas rescisões, mas com grande probabilidade será possível ao BCP devolver os €750 milhões em dinheiro público que foi injetado no banco e ainda está por reembolsar. O estado do banco liderado por Nuno Amado não é o melhor, mas é suficientemente bom para causar inveja.

Hoje, a capitalização do BCP é de €2,3 mil milhões. Menos de metade do que foi injetado no dia 3 de agosto de 2014 no Novo Banco. E quando comparamos com os valores que estavam em cima da mesa de negociações na venda do ex-BES fica a pergunta: porque quererá alguém comprar o Novo Banco se pode lançar uma OPA sobre o BCP? Numa altura em que o acionista de referência do Banco, a Sonangol, está preso na crise do petróleo, poderá não haver uma melhor altura para tentar comprar o BCP. Mais uma vez, os bancos espanhóis podem liderar este movimento. Por exemplo, o BCP poderá interessar ao La Caixa ou ao Sabadell.

O Titanic acabou de chocar contra o Novo Banco

Domingo, Janeiro 24th, 2016

Citamos

Público Opinião Ricardo Cabral

Os Estados de Direito Democrático baseiam-se, em não pequena medida, numa conquista civilizacional única: a noção de que a “carne” que ocupa temporariamente o poder é “fraca”. E, consequentemente, o reconhecimento dessa natureza humana obriga à existência de limites e de controlos a esse poder.

Nas instituições de governo da União Europeia, movidos talvez pela noção de que licenciaturas, mestrados, doutoramentos e pós doutoramentos – a um nível de educação sem precedentes na História – tornavam esses controlos civilizacionais artefactos do passado, não se criaram controlos com a robustez e recursos necessários. Consequentemente, impera o poder quase absoluto dos homens, mas não das leis. Haverá talvez menos de 100 homens e mulheres – a maior parte dos quais tecnocratas – que, na prática, influenciam e em grande medida determinam as decisões das instituições de governo da União Europeia.

Vimos esse poder exercido em relação à Grécia, em que a posição das instituições europeias, qual enorme muralha de aço, parecia invencível, colocou a Grécia “de joelhos” sem qualquer esforço. Estamos agora a assistir a algo de similar com Portugal. Apesar do actual governo utilizar uma estratégia negocial de não confrontação, diametralmente diferente da do governo grego (o Primeiro Ministro Português, provavelmente, considera que a relação de forças é tal que um confronto teria um desfecho similar ao caso grego ou pior) as instituições de governo europeias (e também o FMI), na prática e em larga medida, determinam o que deve ocorrer em relação à banca, às empresas nacionais, ao orçamento de Estado, ao salário mínimo, às pensões e ao mercado laboral.

Só que me parece que o excesso de poder tem disto: excesso de confiança (“hubris em inglês”), a ideia do Titanic a navegar a toda a velocidade com a banda a tocar por um mar pejado de icebergs. Acabamos de viver dois momentos desses, primeiro com o Banif e depois com o Novo Banco.

E, tendo o conhecimento e a noção das consequências pessoais e humanas das decisões tomadas pelas “instituições”, é necessário e fundamental conhecer o momento da História em que nos encontramos. Porque creio que é a primeira vez (pelo menos desde a criação do euro) que as instituições de governo europeias, ou melhor, alguns dos homens e mulheres que detêm o poder nessas instituições, estão “em perigo”.

Senão vejamos. Adivinho uma certa preocupação em círculos de Bruxelas, Frankfurt e Madrid com a atenção mediática que estes casos estão a ter. O “passa culpas” e os enredos com histórias alternativas que são apresentados nos média, são disso sinal. Ao pânico reage-se por vezes “criando confusão”; procurando tornar a imagem menos nítida; abandonando o navio que se afunda à sua sorte (neste caso o Conselho de Administração do Banco de Portugal).

Porém, os homens e as mulheres, desconhecidos, que determinaram os contornos destes dois casos cometeram erros:

1. Muito provavelmente violaram leis europeias e regras das suas próprias instituições;

2. Abriram várias frentes de guerra ao mesmo tempo:

– mandando intervencionar dois bancos em meros 10 dias;

– exigindo ajudas públicas de enorme dimensão no caso Banif;

– mandando pagar para “vender” o Banif ao Santander – um banco espanhol – por “dois tostões”;

– impondo perdas de 100% a grandes credores internacionais.

Em consequência, a relação de forças nas negociações entre as instituições de governo europeias e o governo nacional alteraram-se:

– Não obstante a passividade do governo português com o que ocorreu entre 19 e 29 de Dezembro, aguardando tranquilamente os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito;

– As instituições europeias estão a ser atacadas pelos credores internacionais e estão a defender-se mal, jogando à defesa e revelando fragilidades;

– A opinião pública portuguesa parece estar agora muito crítica em relação às intervenções, responsabilizando o Banco de Portugal;

– Alguns dos homens e mulheres que detêm o poder nas instituições europeias,

– Os casos existentes têm o potencial para se tornar escândalos, potenciando alterações no modo de funcionamento e no controlo das instituições.

Resta desejar que o Governo Português seja capaz de saber utilizar a força negocial que ganhou, com os erros desses senhores e senhoras desconhecidos….

Credores do maior accionista do Banif têm até 20 de Fevereiro para reclamar créditos

Terça-feira, Janeiro 19th, 2016

Citamos

Público

Pedido de insolvência da Rentipar Investimentos, detida pelas herdeiras da Horácio Roque, foi aceite pelos tribunais

O pedido de insolvência da Rentipar Investimentos, holding através da qual as descendentes de Horácio Roque detinham a sua participação no Banif, foi aceite pelos tribunais. A sentença de declaração de insolvência foi proferida no dia 12 deste mês, tendo o aviso sido publicado na sexta-feira, dia 15. De acordo com os prazos legais, os credores do segundo maior accionista privado do Banif (e accionista maioritário até à entrada do Estado, no final de Dezembro de 2012) têm, no máximo, até dia 20 de Fevereiro para reclamarem os seus créditos.

Para já, e de acordo com o documento de insolvência, os principais credores são três instituições bancárias: o BCP, o Banif, e o Novo Banco. No segundo caso, e após a medida de resolução aplicada pelo Banco de Portugal em Dezembro, e que desencadeou a insolvência da Rentipar, torna-se difícil perceber com exactidão quem é o credor, já que o Banif foi dividido em três partes. Isto porque o Santander Totta ficou com os bons activos (por 150 milhões), outros activos foram para um veículo criado na esfera do Fundo de Resolução, o Naviget, e, por fim, ficou uma espécie de “activo esvaziado”, o Banif, que será liquidado.

A Rentipar Investimentos era a holding através da qual as duas filhas de Horácio Roque, Teresa Roque e Cristina Roque, detinham a maioria do capital da Rentipar Financeira. Esta, por sua vez, era dona da Renticapital (ligada a investimentos financeiros) e de uma fatia do Banif. Em Junho deste ano, com o Estado ainda a deter a maioria do capital, a Rentipar detinha apenas uma pequena parte do capital social do banco de forma directa (0,266%). A maior fatia do Banif, de 6%, era detida através da Açoreana (onde a Soil, com sede na Zona Franca da Madeira e presidida por Teresa Roque, detinha 52,3%, acompanhados de outros 47,7% do Banif ).

Nas contas de 2014, a Rentipar Financeira já dava nota das dificuldades que estava a sentir, nomeadamente ao nível da tesouraria, bem como o seu principal accionista, a Rentipar Investimentos. Logo em 2011, a Rentipar Financeira teve de realizar um aumento de capital pela sua relação com o Banif, o que requereu um esforço acrescido num contexto de dificuldade de acesso ao crédito. Depois, já com o Estado como accionista maioritário, fez novas aplicações de capital no Banif, tendo a Açoreana entrado com 75 milhões de euros em Junho de 2013. Agora, os investimentos feitos no banco nascido no Funchal estão reduzidos a zero.

Em 2013, a Rentipar Financeira registou uma imparidade de 352 milhões pela exposição ao Banif, cujas acções estavam desvalorizadas. Em 2014, o valor das imparidade com o Banif desceu para 0,5 milhões, mas houve outros “35,5 milhões de euros relativos a imparidades registadas na totalidade dos saldos com a Rentipar Investimentos”. Nesse ano, os prejuízos da Rentipar Financeira foram de 33,3 milhões, afectando os capitais próprios. Entretanto, a Rentipar Investimentos, que já tinha dificuldade em cumprir com os pagamentos aos investidores que compraram dívida da empresa, está agora sem condições para pagar as obrigações emitidas.

Em 2015 houve 7300 empresas insolventes

Por cada uma, abriram 5,1 novas sociedades

O número de empresas em situação de insolvência totalizou 7288 sociedades, mais 515 empresas do que no ano anterior, de acordo com a compilação feita pela empresa de gestão de risco Ignios, com base nas constituições de empresas e acções de insolvência contabilizadas pelo Ministério da Justiça.

As insolvências aumentaram 7,6% em relação a 2014, mas os resultados desse ano “foram enviesados pela quebra processual do Citius em Setembro” e, retirando esse feito, “este indicador ter-seia mantido estável entre 2014 e 2015”, com uma descida de apenas 0,4%. Na primeira metade de 2015, refere a Ignios, “as insolvências apresentaram uma tendência decrescente face ao ano anterior”, mas desde aí “têm vindo a crescer”, tendo estabilizado na recta final do ano.

A construção continua a ser o sector de actividade mais afectado (com 17,5% do total). A seguir está o comércio de retalho (com um peso de 15,8%) e o comércio por grosso (com 11,6%). Lisboa é o distrito com mais insolvências (22,9%), seguindo-se o Porto (20,4%) e Braga (12,4%). Ao mesmo tempo, foram constituídas 37.419 empresas no país, o que corresponde a uma média de 102 novas empresas criadas por dia. O aumento em relação a 2014 é de 6,1%.

“Governo foi frágil ao não fazer braço-de-ferro sobre Banif”

Domingo, Janeiro 17th, 2016

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Notícias ao Minuto Opinião Francisco Louçã

O antigo líder bloquista crê que o Governo não devia ter colocado três mil milhões de euros no Banif.

Francisco Louçã, no seu habitual comentário na SIC Notícias, abordou a questão da saída do défice excessivo e frisou que o Governo mostrou fragilidade na decisão da resolução do Banif.

O Governo deu prova de fragilidade ao não fazer braço-de-ferro sobre a questão do Banif e ao não impor uma alteração sobre o Novo Banco. Bruxelas ficou satisfeita, percebeu que podia fazer pressão sobre o Governo”, esclareceu o antigo líder do Bloco de Esquerda.

O comentador explicou que o Governo está numa posição difícil porque, por um lado, já tomou decisões que implicam o Orçamento de Estado e que, por outro lado, tem de cumprir medidas impostas por Bruxelas, para que o Banif, tal como o Novo Banco, não entre nas contas do défice.

“O Governo tem razão ao dizer que o dinheiro do Banif não deve contar para este efeito”, garante, acrescentando que foi “um erro grave utilizar três mil milhões de euros num processo que é uma capitalização do Santander, foi uma pura imposição de Bruxelas”, conclui.

Teste quem está afinal com os ricos

Sexta-feira, Janeiro 15th, 2016

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Negócios Opinião Helena Garrido

Os contribuintes portugueses poderão pagar pelo caso Banif quase quatro mil milhões de euros. Os grandes investidores internacionais perderam cerca de dois mil milhões de euros com o reforço de capital do Novo Banco.

Qual a decisão que o Governo do PS apoiado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda defendem? Nem mais nem menos a salvação de um banco com dinheiro dos contribuintes. O Banif bom foi “vendido” ao Santander custando-nos desde já …

Portugal diminui reembolsos ao FMI para 5800 milhões em 2016 e 2017

Quarta-feira, Janeiro 13th, 2016

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Público

Este ano, o Estado só vai devolver 3300 milhões de euros, em vez dos 10 mil milhões que chegaram a estar previstos.

Depois de o falhanço da venda do Novo Banco ter empurrado uma parte dos reembolsos antecipados ao FMI para este ano, o Tesouro voltou a rever o montante a devolver ao Fundo. Em vez de devolver 16.900 milhões de euros já em 2016 e 2017, Portugal só vai pagar de forma antecipada 5800 milhões nestes dois anos.

A estratégia permite à Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP reduzir o pico de financiamento neste período.

Numa apresentação dirigida aos investidores, a agência liderada por Cristina Casalinho prevê que o Estado reembolse de forma antecipada o Fundo Monetário Internacional em 3300 milhões de euros este ano, quando o objectivo anterior era pagar 10 mil milhões de euros.

O mesmo acontece em relação aos valores que o Tesouro previa pagar em 2017. Em vez de 6900 milhões de euros, serão reembolsados apenas 2500 milhões.

No ano seguinte serão devolvidos 4000 milhões, seguindo-se 500 milhões em 2019. Assim, de 2016 a 2019 o Estado vai reembolsar o Fundo em 10.300 milhões.

Numa entrevista à Lusa no final do ano passado, antes de se saber da alteração dos reembolsos ao Fundo, Cristina Casalinho não garantia que o objectivo que então estava em cima da mesa para 2016 pudesse ser cumprido (devolver antecipadamente 10 mil milhões).

“Não sabemos, isso depende muito da alienação de activos, da alienação do Novo Banco e da alienação dos activos do Banif que transitaram para o veículo [Naviget]”, dizia a presidente do IGCP, quando questionada se o adiamento da venda do Novo Banco punha ou não em causa aqueles objectivos.

Na apresentação preparada para os investidores, o IGCP diz que mantém o objectivo de continuar a emitir dívida com maturidades curtas, “reduzindo significativamente os picos de reembolso para os próximos anos”.

O programa de financiamento do IGCP para este ano prevê que as necessidades de financiamento líquidas do Estado sejam de 7000 milhões de euros.

 

Passos Coelho: Banco de Portugal “não se sentiu impelido” a resolver Banif antes de vender Novo Banco

Quarta-feira, Janeiro 13th, 2016

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Rádio Renascença com som

Em entrevista à Renascença, o ex-primeiro-ministro considera, no entanto, que o dossier Banif não terá sido adiado. “Nunca conseguimos identificar um comprador”, sublinha.

No período em que “estava a procurar vender o Novo Banco”, o Banco de Portugal “não se sentiria impelido a tomar uma decisão de resolução do Banif”, admite o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Renascença.

Como explica a surpresa do Banif, que nos vai custar quase tanto como outros desastres financeiros? E isto num banco de menor dimensão e que estava nas mãos do Estado.

Vamos ver quanto custa.

Fala-se em três mil milhões…

É muito possível que esse custo esteja inflacionado porque a Direcção-geral da Concorrência fez um desconto de 66% no valor dos activos que o Banif tinha. É muito possível que esses activos valham mais do que foram contabilizados para efeitos da resolução.

Mas vai custar caro.

Foi uma questão que não se conseguiu resolver. Enquanto fui primeiro-ministro, resolvi muitas questões. Até uma verdadeira surpresa, a do Banco Espírito Santo.

Pode dizer-se que essa questão e a venda do Novo Banco o distraíram do Banif?

Não creio que a questão se possa colocar assim. A auditoria que nós [PSD] solicitámos a todo este processo e a comissão de inquérito, que também propusemos, serão importantes para olhar em detalhe para tudo isto. Não o consigo fazer aqui num minuto ou dois.

Mas não houve incúria do Estado?

Não creio. Não vou dizer que as questões Banif e Novo Banco sejam independentes, claro que houve alguma relação entre as duas. Não tenho dúvida que durante o período em que o Banco de Portugal, através do Fundo de Resolução, estava a procurar vender o Novo Banco não se sentiria impelido a tomar uma decisão de resolução do Banif.

Portanto, a questão foi atrasada.

Não diria atrasar. Nunca conseguimos identificar um comprador para o Banif. Por isso, disse que, se estivesse no Governo, não teria uma solução muito diferente. Um banco que está em dificuldades ou é capitalizado pelos seus próprios accionistas – ora, o Estado que involuntariamente era accionista não ia pôr lá mais dinheiro e os accionistas privados originais não tinham dinheiro para lá pôr -, ou é vendido (nunca conseguimos identificar um investidor) ou, se não for resolvido, tem que ser liquidado, que é um custo muito superior ao da resolução.

Não era de excluir que durante o processo de venda do Novo Banco, um investidor que não tivesse conseguido comprar o Novo Banco, e tivesse interesse em entrar em Portugal e adquirir a rede de balcões do Banif, entendesse que poderia fazer uma oferta sobre o Banif. Poderia haver sinergias resultantes do processo de venda do Novo Banco que ajudassem a resolver o problema do Banif.

Houve uma altura em que o BCE retirou o estatuto de contraparte ao Banif, porque ele já não tinha capacidade e activos para poder aceder à liquidez do Banco de Portugal ou do BCE. Isso resultou de se ter andado a tratar da questão do Banif na praça pública. Uma vez que parece ter havido a preocupação de imputar tantas culpas ao Governo anterior, parece que não houve o cuidado de tratar este assunto com a reserva que ele devia merecer. O primeiro-ministro [António Costa], para marcar uma diferença com o anterior e dizer: “Eu não me escondo por trás do governador do Banco de Portugal”, quis anunciar a decisão do Banif quando quem decidiu resolver o Banif foi o Banco de Portugal.

[No Governo PSD/CDS] Não conseguimos obter da Direcção-geral da Concorrência autorização para separar os activos, vender o que era bom e tentar digerir o que era menos bom. É muito importante para futuro preservar a estabilidade do sistema financeiro para crescer. E já agora preservar também a confiança dos investidores externos em Portugal. Este Governo não o está a fazer.